17/07/2026 – A partir de 1 de agosto, pelo menos nos próximos 180 dias, a gasolina comercializada no Brasil terá 32% de etanol anidro, conforme decisão anunciada pelo CNPE – Conselho Nacional de Política Energética, em meio a contestações e aplausos.
Entidades representativas de distribuidoras regionais e dos Postos de Combustíveis, entre outras, publicaram Nota, expressando preocupação com o aumento da adição do biocombustível na gasolina. “As entidades (…) reafirmam seu apoio inconteste à descarbonização… A preocupação recai sobre os potenciais impactos (do etanol anidro) na frota de veículos leves, embarcações de pequeno porte (e outros)” – disse a Nota.
Já a representação dos produtores comemorou a aprovação da mistura: “A decisão do CNPE representa mais um passo na evolução de uma política pública construída ao longo de décadas” – disse a Única.
Interesses corporativistas à parte, importa ressaltar a já longa experiência, bem sucedida, que o Brasil acumulou no trato de biocombustíveis na matriz veicular. Sempre que opinei sobre essa matéria, sublinhei a preliminar de que toda maior adição de etanol ou biodiesel na gasolina e no diesel deveria ser precedida, necessariamente, de testes laboratoriais e da fundamentada aprovação dos fabricantes de motores. A decisão governamental vem depois. Isto é, o determinante nunca pode ser a vontade política, mas a responsabilidade técnica.
Prefiro acreditar que, como até aqui, assim se deu na conclusão do CNPE, aliás adiada mais de uma vez.
Nossa trajetória com o biocombustível de cana de açúcar é quase centenária, data de fevereiro de 1931, quando o Decreto nº 19.717, instituiu, para a gasolina importada, a adição de 5% de álcool. Então, o Brasil dependia da importação de petróleo e, por conseguinte, estava vulnerável às flutuações de seu preço internacional.
De lá pra cá, o Brasil aumentou, ano a ano, a produção do derivado de petróleo, fazendo despencar sua importação. Também aumentaram a produção e modernização do biocombustível, com o surgimento de centenas de usinas, a ponto de deslocar geograficamente seu tradicional polo, do Nordeste para São Paulo. O setor bioenergético brasileiro iniciou a safra 2026/27 com produção recorde de etanol, adicionando quase 4 bilhões de litros ao mercado doméstico, volume próximo ao total de gasolina importado pelo país em 2025, de acordo com nota conjunta de Bioenergia Brasil, Unem e Única. Lembro, os cerca de 3,5 bilhões de litros de gasolina importada custaram U$S 1,6 bilhão, 10% mais que em 2024.
A nomenclatura inovou, deixando de ser álcool para se chamar “etanol anidro”, um combustível automotivo específico. Além dele, passamos a produzir etanol hidratado, comercializado nos Postos de combustíveis. O metanol, um composto químico, outrora misturado à gasolina para lhe dar mais octanagem, foi definitivamente banido no início da década de 1990, dado seus danosos efeitos, substituído pelo etanol. Os níveis de mistura à gasolina aumentaram ininterruptamente, até chegar aos 30%, em agosto passado. Por fim, mas não menos importante, com o apoio da indústria, passamos do carro a alcool, ao pioneiro veículo flex, dando ao consumidor optar entre a gasolina com anidro e o abastecimento com etanol hidratado. A matéria-prima do etanol deixou de ser apenas a cana de açúcar, diversificou, tornando o milho sua segunda fonte. Há também em perspectiva, a produção a partir de trigo.
Foi por essa bem resolvida experiência, que o Brasil se tornou referência mundial em biocombustíveis, uma revolução tecnológica sintonizada com os desafios da transição da era do petróleo.
Não é apenas sobre menor preço da gasolina oferecida aos consumidores. Como nunca, fatores macroeconômicos, macro ambientais e geopolíticos estão na ordem do dia mundo afora. Na década de 1970, atento aos impactos severos da crise do petróleo, o Brasil anunciava o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), tendo por meta estimular a produção do combustível vegetal, de modo a neutralizar a dependência da importação do “ouro negro”. Desde então, o Brasil passou a exportador de petróleo, ainda que não tenha alcançado a autossuficiência em gasolina e diesel. Tornou-se, ademais, a mais bem sucedida experiência com o manuseio de biocombustíveis.
Ou seja, graças à sua centenária experiência, o país depende hoje menos das compras internacionais de gasolina (menor impacto na balança comercial), tem mais segurança energética e prosperou na descarbonização de sua matriz veicular – a pegada de carbono do etanol é até 90% menor que a da gasolina mineral.
Estamos falando de transição energética como a crise ambiental impõe e exigem as flutuações nos preços da commoditie, por conta dos conflitos pelo controle do petróleo.
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Edson Silva – economista, ex-Superintendente de Abastecimento da ANP – Agência Nacional doPetrólo, Gás Natural e Biocombustíveis – sócio-fundador da consultoria ES Petro
